Quem é
Anderson Clayton?

Clayton (como prefere ser chamado) estudou Ciências da Computação na USP e formou-se em Análise de Sistemas de Informação no IBTA-SP. Em seguida cursou o MBA em Gestão Estratégica da Tecnologia da Informação. Atualmente está dedicando-se à certificação de Project Manager Professional (PMP-PMI). Atuou durante 5 anos na área de sistemas de CRM (Customer Relationship Management) e no momento está ligado a projetos relacionados ao mercado financeiro (Asset Management). A partir de 2001 adotou como antídoto para o stress cotidiano o mergulho autônomo e, apenas por hobby, formou-se instrutor de mergulho recreacional em 2004. Sua modalidade de mergulho preferida é o mergulho em cavernas, sendo certificado como Cave Diver pela NSS-CDS, Full Cave diver pela NACD e Technical Cave Diver pela IANTD.
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Akumal: 1065 minutos, 14 cenotes, 11 mergulhos e 2 certezas.

pag_inicial_duplap.JPG Matéria, de minha autoria, publicada na revista DECO STOP, ano 2 número 8 maio/junho/julho 2005. 

Clique aqui para baixar a matéria em formato PDF.

Uma semana por uma das regiões mais especiais do planeta através de cavernas incríveis e de quebra conhecendo parte da cultura de uma das civilizações mais misteriosas e intrigantes que já existiu.

A região conhecida como Riviera Maya, na Península de Yucatán no México é certamente um local único para os turistas e mergulhadores de todo o mundo, afinal além de Cancún e o maravilhoso mar do Caribe, é lá que se encontra um dos pontos de mergulho mais visitados dos últimos tempos: a famosa ilha de Cozumel. Mas essa região é ainda mais especial para uma seleta comunidade de mergulhadores conhecidos como “caverneiros”, nem sempre compreendidos pelos não praticantes dessa atividade perigosa mas ao mesmo tempo fascinante e indescritível. É como diz um ditado conhecido por aqueles lados: “If you don´t go, you won´t know!

stopgrancenote.jpg calimba2.jpg

Com centenas de cenotes (palavra de origem maia que na prática significa a entrada para uma caverna) e nada menos que 4 dos 5 maiores sistemas de cavernas alagadas do mundo, a Riviera Maya é considerada por muitos como o melhor lugar do planeta para se mergulhar em cavernas afinal cada uma delas esconde, e ao mesmo tempo revela aos olhos privilegiados dos cave divers, características únicas, tornando cada mergulho uma experiência ainda mais inesquecível. Tais particularidades, que já atraíram nomes como Sheck Exley, Steve Gerrard, Mike Madden, Michael Menduno e tantos outros, há muito tempo despertaram minha vontade de conhecer pessoalmente essas maravilhas da natureza. A primeira vez que planejei essa viagem foi há mais ou menos um ano atrás, e apesar do planejamento não ter sido efetivado, serviu para transformar ainda mais a expectativa em uma conquista a ser alcançada. Felizmente esse ano tudo correu bem e é com muito prazer que estou agora escrevendo sobre esse sonho enfim realizado.

Só comecei a acreditar mesmo que estava concretizando a viagem ao desembarcar no aeroporto de Cancún, depois de uma jornada de cerca de 14 horas (incluindo a conexão na Cidade do México). De lá, mais uma hora de carro para vencer os aproximadamente 100 Km até a cidade de Akumal, onde ficamos hospedados. Piscina, lanche e um merecido descanso para poder iniciar o dia seguinte com a corda toda. Aliás não via a hora de estar mergulhando (costumo dizer que meu sangue sente falta do nitrogênio, talvez você leitor já tenha se sentido assim também alguma vez na vida).

nohoch.jpg Feito: no dia seguinte, após o café da manhã fomos preparar o equipamento para enfim embarcarmos rumo à nossa primeira aventura em terras maias, tendo sido o cenote Chac Mool escolhido pelos guias locais para essa estréia. Chac Mool do lado de fora não empolga muito, é verdade, afinal entramos pelo cenote Little Brother  que é um pequeno lago acessado através de uma escada de pedras, sem nenhum atrativo além das belas águas cristalinas (fizemos uma pequena “travessia” deste cenote até Chac Mool). Mas saber que naquela caverna encontra-se a maior estalactite submersa do mundo, com mais de 20 metros de altura já me deixou muito animado e com grandes expectativas quanto ao mergulho. Um briefing bastante detalhado feito pelo nosso guia local Gonzalo, com o desenho das linhas permanentes da caverna e do percurso que seguiríamos, contribuíu para fazer com que o mergulho fosse bastante tranqüilo e proveitoso. Depois de cerca de 40 minutos caverna adentro, atravessando salões ricamente decorados com lindos espeleotemas chegamos ao local chamado Monster´s House (graças a uma formação que parece a cabeça de um monstro) onde fica localizada a imensa estalactite. Alguns minutos de contemplação e o polegar para cima de um dos membros do grupo nos lembrou que havíamos atingido nosso primeiro terço do suprimento de ar e portanto deveríamos iniciar nossa jornada de retorno até o cenote de origem. Utilizei alguns minutos do percurso de volta para agradecer mentalmente a oportunidade de finalmente estar ali e conhecer lugares tão maravilhosos e que poucos olhos já tiveram o prazer de testemunhar.
Tentando deixar um pouco de lado o emocional (o que sinceramente é impossível nesse tipo de atividade), vou me ater mais aos detalhes técnicos dos mergulhos, começando por alguns números. Nos oito dias que estive em território mexicano (seis deles mergulhando), foram:

  • 1065 minutos de tempo total de mergulho (incluindo algumas poucas decos),
  • 14 cenotes,
  • 11 mergulhos,
  • 1 quase furacão.

grancenote.jpgA essa altura você deve estar achando esses números bastante estranhos, afinal 14 cenotes e 11 mergulhos? E esse tal “quase furacão”? Calma, vou explicar melhor. O planejamento da viagem incluía 12 mergulhos, mas em virtude do aviso de chegada do furacão Ivan no começo da tarde do segundo dia de mergulhos, tivemos que abortar um. Voltamos para o hotel e aguardamos pelo furacão, mas ele preferiu passar mais lá pros lados de Cancún (causando alguns estragos consideráveis e mantendo os turistas presos nos quartos de hotéis daquela cidade por 2 dias seguidos), em Akumal apenas uma rápida tempestade. Bom, já explicado o fato de terem sido 11 mergulhos, então de onde vem os 14 cenotes? Acontece que justamente no dia que aguardávamos o furacão fizemos na parte da manhã um mergulho muito especial no cenote Dos Ojos: uma travessia até o cenote Monolito, passando por outros 3 cenotes no caminho. Portanto nesse único mergulho conhecemos 5 cenotes. E para fechar a conta dos 14 cenotes, falta explicar que no último dia, fizemos dois mergulhos no mesmo local. Resumindo, a agenda ficou assim:

Primeiro dia de mergulhos (segundo dia da viagem)

  • Cenote Chac Mool - A maior estalactite submersa do mundo por si só já vale a experiência,
  • Cenote Taj Mahal - Além de belas formações, restrições bastante apertadas dão um brilho e uma emoção maior ao mergulho.
restricao.jpg

Segundo dia (apenas um mergulho por conta do furacão Ivan)

  • Cenote Dos Ojos  -Travessia seguindo no sentido downstream  (a favor da correnteza) até o cenote Monolito, passando pelos cenotes Dos Palmas, High Voltage e Tapir’s End. Um percurso de aproximadamente 2 km em mais de 2 horas de mergulho (sem deco). Um dos melhores mergulhos da viagem sem dúvida.

Terceiro dia

  • Cenote Carwash - Como o próprio nome diz, era utilizado para lavagem de carros por taxistas uma vez que esse cenote fica praticamente à beira da estrada. Possui uma área de cavern (região aonde é possível enxergar a luz do sol) espetacular. O ponto alto desse mergulho é seguir através de um jump escondido (sem marcação no cabo principal para que somente guias experientes possam seguir este percurso) até o famoso Salão das Lágrimas (Room of Tears). Um local simplesmente indescritível tamanha a beleza e quantidade de formações. Certamente um dos lugares mais bonitos do mundo!
  • Gran Cenote -  Outro local cuja zona de cavern é de beleza única com formações espeleológicas enormes e belíssimas. Fizemos um circuito complexo conhecido como Cuzan Nah Loop, composto por nada menos que 5 jumps, nesta caverna que também é ricamente decorada.

Quarto dia

  • Cenote do Sol - A impressão que se tem quando se vê este cenote
    pela primeira vez é que vamos fazer um mergulho numa poça d´água. Sua entrada é minúscula e escondida embaixo de uma pedra, com uma árvore bem na frente (que facilitou nossa entrada na água). cenotedelsol.jpg

    Cerca de 30 minutos depois de entrarmos, passada a adrenalina inicial, o ponto alto: um verdadeiro show de efeitos visuais proporcionado pela haloclina presente na caverna. É fascinante ver o mergulhador à sua frente praticamente desaparecer ao atravessar a linha que separa a água doce (menos densa e portanto mais acima) da água salgada (mais densa e portanto mais abaixo). Uma vez que se esteja na água salgada é possível olhar para cima e perceber pequenas ondas formadas no encontro das duas águas (segundo o guia isso acontece por conta de cada uma correr em um sentido diferente). A impressão que se tem é que a linha da haloclina é o teto da caverna tamanha a ilusão causada. Brincar de ficar na água doce e colocar a lanterna na água salgada ou vice-versa faz dessa caverna um grande parque de diversões.

  • Cenote Mayan Blue - Pelo nome podemos imaginar que no visual dessa caverna deve predominar a cor azul, e é isso mesmo. Seguindo pelo cabo principal do túnel A, fizemos um pequeno jump para a direita descendo até um duto lateral, paralelo ao principal, ricamente decorado com centenas de estalactites, estalagmites e colunas que ficam ainda mais belas graças ao efeito do “azul maia”. Esta área é chamada de Dead Arrow Passage ou Passaje de La Flecha Muerta porque certa vez encontraram um seta apontando para o interior da caverna ao invés de apontar para a saída (em mergulho em cavernas, as setas sempre indicam ao mergulhador a direção da saída mais próxima). Ao final do duto, outro pequeno jump, dessa vez à esquerda subindo para retornar ao cabo principal, seguindo à direita neste. No retorno, a equipe pára e espera enquanto o guia recolhe a primeira carretilha e retorna ao cabo principal, segue em frente e repete o procedimento no segundo jump. Devido à profundidade um pouco maior (cerca de 24 metros) tivemos que pagar deco na saída da caverna, o que foi bastante agradável já que pudemos fazer isso no grande lago onde turistas curiosos nos observavam enquanto faziam snorkeling.

Quinto dia
 Nesse dia, resolvi pedir ao nosso guia que nos levasse a lugares especiais. E Gonzalo atendeu prontamente.

  • Cenote Los Muchachos - Poucas pessoas já estiveram neste local, explorado pelo grupo conhecido como Cambrian Foundation. O cabo principal ainda é o cabo de exploração, com diversas marcações topográficas.
    A entrada é em um pequeno lago cuja água tem a cor de cobre e com muito sedimento (composto por folhas caídas das árvores e uma terra tão fofa que é possível enterrar o braço nela). losmuchachos.jpg

    Graças à baixa profundidade do lago, ao sedimento e ao fato de que para entrar precisamos praticamente encostar no fundo, os primeiros metros da entrada foram vencidos através de toque com o cabo. Lá dentro encontramos uma caverna com forte personalidade e com profundidade acima da média local (máxima de 26 metros no percurso que fizemos) que fez com que eu tivesse cerca de 15 minutos de deco para pagar (como o meu computador era o mais conservador, fui o último a sair da caverna). Conforme imaginamos a saída também teve que ser feita pelo cabo já que a visibilidade foi reduzida a zero logo que o primeiro do grupo iniciou sua saída. Durante toda a deco eu olhava para o cabo (mantendo contato permanente) e via ele sumir centímetros à minha frente. Mesmo sabendo que pouquíssimos metros me separavam da saída da caverna, não era possível ver a luz do Sol e a única saída era utilizar o conhecimento adquirido no curso e felizmente tantas vezes treinado: sair da caverna sem visibilidade, utilizando o cabo guia. Nessas horas é que constatamos o quanto realmente controle e atitude correta são vitais para o mergulhador de cavernas. Seria muito fácil para alguém sem treinamento entrar em pânico e cometer um erro fatal ao sentir-se naquela situação: sozinho e sem enxergar nada, sequer um palmo à sua frente. Calma mantida e conhecimento aplicado corretamente fizeram com que eu voltasse a ver a luz do dia com uma felicidade enorme por ter feito um mergulho tão diferente.

  • Cenote Calimba - Uma grande área seca muito bonita, já com teto e diversas formações na entrada dessa caverna. Grandes estalactites e muitos morcegos estão lá para recepcionar os cave divers que querem conhecer os segredos deste cenote. Segundo Gonzalo, calimba é um instrumento musical da região e o local teria recebido este nome graças ao fato de algumas de suas estalactites serem capazes de produzir um som muito próximo ao de uma calimba quando tocadas.
    Diversas subidas e descidas (prof. máx 26 metros) e restrições muito baixas e apertadas cercadas de formações extremamente frágeis exigem desse mergulho muita técnica e excelente controle de flutuabilidade. calimba1.jpg
    stalagmitep.JPG Devido a essas dificuldades não pude levar meu equipamento de filmagem sub, ficando o filme do mergulho gravado apenas nas mentes de cada um da equipe, local de onde provavelmente jamais será apagado.

Sexto dia

  • Cenote Nohoch Nah Chich - Como já dito anteriormente, neste cenote fizemos 2 mergulhos. Durante muito tempo o sistema de cavernas a que Nohoch pertence foi considerado o maior sistema submerso do mundo, com mais de 60 km de dutos cabeados. Isso mesmo, mais de 60 km! Até alguns anos atrás a operação de mergulho em Nohoch era de exclusividade da operadora de Mike Madden e o percurso até sua entrada tinha que ser vencido com a ajuda de mulas para o transporte do equipamento em uma longa e exaustiva caminhada. Hoje em dia o mergulho autônomo naquela caverna é liberado, sendo negociado diretamente com “Dom” Pedro, o proprietário da terra aonde se encontra o cenote. A atividade de snorkeling na zona de cavern no entanto é exclusiva de uma empresa que paga algumas dezenas de milhares de dólares mensalmente ao proprietário, tamanha a quantidade de turistas que vão conhecer aquele local tão bonito. Diversas linhas estão instaladas dentro dessa enorme caverna e em alguns momentos nos encontramos em salões tão gigantes que podemos ver muito ao longe as luzes das lanternas dos outros grupos que estão fazendo outro percurso, em outro cabo. É quando você percebe que não está exatamente em um duto, mas em um salão tão grande e com tantas formações que é impossível entender se estamos em uma lateral ou no meio do salão já que não vemos seu fim. No primeiro mergulho, seguimos através da linha Alberto´s, virando no segundo “T” à esquerda e fazendo um jump até o cabo principal, seguindo por ele até atingirmos a pressão de retorno, fazendo o mesmo caminho na volta. O segundo mergulho foi iniciado no cabo principal, passando por uma região conhecida como “Disneyland” graças à enorme quantidade de formações, muitas colossais. No segundo jump à esquerda seguimos por uma área aonde podem ser visualizadas formações raras e especiais chamadas de halactites (uma espécie de estalactite retorcida graças à ação do vento existente naquele trecho da caverna quando ela ainda estava em formação. Em tempo: toda caverna com formações espeleológicas já foi seca um dia, período em que a ação das chuvas foi muito lentamente moldando as verdadeiras obras de arte  da natureza. Após o alagamento, a gênese da caverna cessa, podendo um dia ser retomada caso a caverna volte a ser seca). O cabo presente nesta área nos leva até a linha Charlie´s, na qual seguimos mais uma vez até o primeiro do grupo alcançar seu terço do suprimento de ar, quando iniciamos o retorno pelo mesmo percurso. A diferença é que aquela era a parte final do último mergulho da viagem. Tantos mergulhos, tantas horas e o sentimento de “quero mais” e de que tudo aquilo foi pouco pois não conhecemos nem 1% do potencial da região. Mas acima de tudo isso uma sensação de êxtase total.

galeranohoch.jpgPara finalizar uma viagem tão especial na terra dos antigos maias, nada melhor que usar o finalzinho da tarde para conhecer a única ruína de uma cidade maia localizada na beira do mar: o sítio arqueológico da cidade de Tulum, um lugar muito bonito, repleto de histórias e misticismo para muitas pessoas. Uma linda caminhada enquanto eliminamos o nitrogênio residual para poder voltar para casa no dia seguinte. Mais um presente da região, como se já não bastassem as belezas do Mar do Caribe e dos cenotes.

Após uma ida noturna até Playa Del Carmen para brindar com tequila (afinal estávamos no México) o sucesso da viagem e uma curta porém merecida noite de descanso, durante o longo vôo de volta fui relembrando cada cenote, cada trecho percorrido, cada sensação, enfim, revivendo aquela semana na cabeça. Naquele momento duas certezas habitaram meus pensamentos. A primeira certeza é de que a região de Akumal é realmente um paraíso para a atividade de mergulho em cavernas e todo caverneiro que se preze, mesmo aqueles que preferem mergulhos mais técnicos (e sem querer entrar nessa discussão, podem encontrar isso lá também) deveria um dia conhecê-la, pois não irá se arrepender. E a segunda certeza na verdade não passa da concretização de um “medo” que me havia surgido assim que saí da água no final do primeiro mergulho: ficar viciado! Sim, os cenotes são altamente viciantes! Com certeza ainda precisarei voltar lá muitas vezes até poder dizer que conheço alguma coisa e, confesso que farei isso sempre que puder e com o maior prazer.
 

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